Entrevista: Autor Luiz Fabrício de O. Mendes – “Goldfield”

Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome “Luiz Fabrício de Oliveira Mendes”, vaga por estas terras desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca, São Paulo, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural, e pode ser essa sua estima pelos mortos que o levou a se formar em História. Atualmente é professor, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

Entrevista

1. O que veio primeiro? A vontade de escrever histórias ou o desejo de cursar História?

A vontade de escrever. Já dou vazão a ela desde os 12 anos de idade, quando estava no sétimo ano escolar (à época, sexta série). A inspiração veio dos games (eu estruturava minhas primeiras histórias como roteiros de jogos em minha cabeça, antes de começar a escrevê-las), filmes de ação e ficção científica, e noveletas pulp que eu comprava barato numa banca de minha cidade e podia trocar por outras depois de ler sem pagar novamente. A paixão por História veio mais ou menos nessa mesma época: de longe era minha matéria favorita na escola e pesquisava temas fora das aulas por puro prazer, mas a decisão em cursar tal faculdade veio apenas no terceiro ano do colegial. A partir de certo ponto, porém, as duas paixões começaram a andar juntas: hoje, dificilmente não incluo História como pano de fundo nos enredos que crio.

2. Considerando que você é um professor de História, o quanto de referência histórica você insere em seus contos e romances? Quais os temas dessa área que mais lhe despertam vontade de trabalhar na ficção?

Como dito, quase a totalidade de meus enredos contêm pano de fundo histórico, seja como premissa básica do enredo ou na forma de referências ao longo da narrativa. Não possuo predileção por épocas específicas: elas surgem atreladas às ideias que quero trabalhar, geralmente oriundas de temas envolvendo fantasia ou mitologia. É comum eu utilizar a premissa de “criatura fantástica afetando o acontecimento histórico X” ou “realidade e mitologia se fundem em evento Y, mas apenas a versão histórica é conhecida, eis a fantástica”. Assim, ficção histórica e literatura fantástica andam juntos em muitos de meus textos: seja com um Tiradentes caçador de vampiros ou com as viagens marítimas dos europeus à América iniciadas, na verdade, por causa da Dama do Lago querer esconder o Santo Graal.

3. Quais as produções artísticas (livro, HQ, filme, seriado, jogo etc) que trabalham elementos e eventos da História que você mais gosta?

De uns anos para cá, minha obra predileta nesse quesito são os jogos da série Assassin’s Creed, da Ubisoft, que combinam perfeitamente ficções histórica e científica e incluem personagens criados para os games em retratos de outras épocas muito bem pesquisados, com ambientação altamente imersiva. Em livros, por incrível que pareça, não indicarei uma ficção histórica, mas uma obra de fantasia: Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones). O motivo: George R. R. Martin é um ávido leitor de narrativa histórica e estruturou quase a totalidade de seu mundo em analogias a locais, pessoas e eventos de nossa própria realidade, mas remodelando-os para o enredo que se propôs a contar. Fez valer uma regra de ouro a quem escreve fantasia: não há matéria-prima melhor, e mais fascinante, que a própria História.

4. Como você concilia a vida de professor com a de escritor? (obs.: seus alunos leem o que você escreve?)

Com dificuldade. Principalmente no momento atual, também cursando mestrado. Ideias não faltam, mas o tempo é escasso para escrevê-las; ou quando o tempo surge, a estafa mental me impede de aproveitá-lo com a escrita. O ofício de professor, lecionando não só História, mas Filosofia e Sociologia, é bastante inspirador, e não raro questionamentos ou reflexões no ministrar das matérias viram sementes a enredos futuros. Muitos alunos leem, sim, meus textos, e geralmente há interesse e envolvimento. Inclusive é deles, muitas vezes, aquele feedback animador quando sinto que ninguém mais está lendo minhas histórias.

5. Você tem um currículo como escritor de fanfics. Você ainda se dedica a elas tal como aos seus originais? Quais as fanfics que você mais gostou(a) de escrever?

Hoje não me dedico mais, infelizmente, embora vira e mexe surja vontade. O motivo é o tempo reduzido para escrever, que me impele a gastá-lo com meus originais, prioridade acima das fics por estas não serem de minha total autoria e não poderem ser utilizadas para firmar minha carreira como escritor. Sinto falta, porém, de criá-las, principalmente para atrair novos leitores. Algumas de minhas preferidas já criadas são “Death Note: Ressurreição”, pelo sucesso que fez em sites como Nyah! Fanfiction (à época da escrita, em 2009/2010) e Wattpad (mais recentemente) e a saudade de ter um texto a atualizar regularmente com grande expectativa do público quanto a novos capítulos; “The Dawn of Evangelion” por conta do número de acontecimentos históricos do século XX com que trabalhei e tentei adaptar ao universo do anime/mangá, sendo um trabalho bastante autoral e que até penso em converter totalmente a original no futuro; e “Fate/Supremacy”, em que trouxe a Guerra do Graal da franquia Fate ao Brasil e inseri meus próprios mestres e espíritos heroicos (empregando justamente meus saberes históricos) à trama, além de ser a história responsável por evoluir, e muito, minhas descrições de cenas de ação e batalhas.

6. Quais os seus livros (e autores) brasileiros preferidos?

Adoro o Machado de Assis, autor ao qual boa parte dos jovens torce a cara. Mas prefiro bem mais os contos dele aos romances. Em questão de literatura fantástica mais atual, confesso que li poucos autores e preciso me atualizar. Porém gosto do Eduardo Sphor, cuja estruturação criativa lembra meus textos: une fatos históricos a um teor fantástico, situando os enredos de seu universo em diversos momentos diferentes do passado. O worldbuilding é bem bacana.

7. Como você avalia o atual panorama da literatura brasileira contemporânea em termos de produção e recepção do público? 

O cenário é um tanto nefasto, infelizmente, ainda mais diante da crise editorial. Muitos autores talentosos são relegados ao ostracismo por simplesmente não terem meios hábeis para divulgar seu trabalho, e principalmente publicá-lo de modo a atingir um número satisfatório de leitores. Uma via possível é a publicação independente, contando com divulgação constante pela Internet e investidas em outras mídias, como YouTube. Um trabalho longo e cujos resultados demoram a aparecer, mas que se mostra recompensador pela persistência.

Livros publicados pelo autor

Redes sociais
Página do autor (Facebook)
Página de O Legado de Avalon (Facebook)

Acervo de histórias de Goldfield
Wattpad
Nyah

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